Nota do autor: caso você venha a salvar este arquivo em seu disco ou a imprimi-lo, avise-me. O texto pode ser usado livremente, desde que devidamente citados autor e fonte. (PEREIRA, Wilian. "Pincel para limpar a fuligem: uma crítica à Universidade". Delenda Omnia, http://delenda.tripod.com/pincel.htm, 1998.)

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Pincel para limpar a Fuligem:
Uma Crítica à Universidade

Wilian Pereira

Campinas-SP.
Nov-1998.

Introdução

O estudo da atmosfera intelectual e das posturas de alguns pensadores dos séc. XVI a XVIII, na Europa, no que se refere à busca por uma formação intelectual ampla e diversificada, nos levou, mediante comparação com nosso contexto e nossa atitude de estudo nos dias de hoje, a observar o quanto toda a especialização e fragmentação atuais são prejudiciais e empobrecedoras de nossa cultura e de nossas vidas.

O trabalho que se segue pretende ser um convite para que cada um se permita e se faça ser um pensador que não se prenda às rígidas normas e secções das grades curriculares (a ambigüidade do termo nem sempre é por mero acaso). É estimular o surgimento de um tipo de pensador que tenha gosto pelo ornamento, pelo belo, pelo imaginário; e da mesma forma pelo factual, pelo prático. Um pesquisador que tente, por exemplo, até onde possa, diluir a rigidez de um conceito filosófico em mares de imagens e lirismo, sem nenhuma perda de conteúdo (aliás, muito pelo contrário!).

A razão de se tentar estabelecer necessárias ligações entre as `partes' em que se dividiu o conhecimento é o simples fato, imediatamente perceptível, de que essa segmentação inescrupulosa do pensamento leva a uma espécie de alienação do pensador quanto ao resultado final de sua pesquisa; leva a um empobrecimento da cultura e à produção de máquinas humanas especializadíssimas em determinada área para atender exigências ora curriculares, ora acadêmicas, ora mercadológicas.

Por fim, alertar para os perigos da vaidade e da autopromoção no meio acadêmico, posta às vezes em situação prioritária mesmo em relação a própria pesquisa.

Uma Crítica à Universidade

No princípio, quando uma primeira centelha de luz ardeu no primeiro dos intelectos humanos (se é que podemos falar nesse `princípio'), tudo era belo e dinâmico. A curiosidade humana trabalhava a todo vapor, aliada à razão, na grande empreita de explicar e entender o mundo ao redor (e os mundos abaixo, acima, os de dentro...). `Pensar' não conhecia limites, nem secções. Diferentes pessoas, das mais diversas origens, eram ouvidas, dispunham suas idéias em debate, não se preocupavam muito com algo que não em encontrarem uma idéia ou opinião que fosse mais provável e mais verdadeira que as outras. Pouca vaidade ardia no verdadeiro filósofo.

A busca incessante por uma verdade era o fim último da especulação. Em suas pesquisas, o pensador incorporava elementos das mais diversificadas fontes, argumentos de física, matemática, mitologia, música, artes, poesia, política... todo o saber formava uma imensa e atômica unidade.

Mas História _ dama única que sobrevive a seu efeito paulatino, avassalador, definitivo _ é mãe-irmã de Dialética, senhora que, por seu cavalgar trôpego mas decidido, comanda Raciocínio, Ciência e História ela mesma; do que decorre que tanta luz e beleza iniciais se tenham quase perdido durante a semi-trévea Idade Média. O raciocínio escolástico-aristotélico(-religioso), com toda sua rigidez e limitações, reinava nas universidades e nas mentes de toda a Europa, num mandato de quase mil anos.

Anda Dialética, rápida e feiamente: um passo destro, um canhoto; um passo pra frente... destro, canhoto, pra frente... Vem o Renascimento romper as densas `trevas' de então, recuperando elementos da Antigüidade. Do conflito homem-Deus, como que por mais um capricho de Dialética, nasce a híbrida criança Barroco, um misto conflituoso de paganismo e religiosidade, certeza e dúvida, ciência e fé.

Também os filhos de Barroco _ e isso foi, até há bem pouco tempo, característica comum a quase todos os outros descendentes de História _ se preocupavam em conciliar tanto quanto possível as diversas artes humanas sob a forma de um saber unitário, a despeito de toda especialização.

Também assim nas Luzes. Ah, as Luzes, as belas Luzes... quanta poesia, quanta pintura, e música, e física, e matemática...; quanta finura, quanto ornamento em Filosofia!

Daí, numa nova busca pelo obscuro, pelo oculto, pelas trevas, vem o Romantismo, recuperando um tanto do Renascimento, um tanto da Idade Média, inventando outro tanto. A regra agora era o eu, o inconsciente, o pessoal; névoas e vapores se confundiam com castelos encantados e princesas indefesas. Rainhas más sentavam-se à mesa com amores impossíveis e jovens e geniais moços, que tão cedo se deixavam abater pela afiada foice da Morte.

Assim se dava a marcha das duas irmãs: cada nova época parecia retomar a época anterior à anterior a ela, incorporando certos elementos e transformando e adicionando alguns outros, numa dança que chega aos dias atuais; e por eles passará, imune, indiferente, eterna.

De repente, contudo, como não que por um encanto _ como poderia pretender um romântico _, senão por um desencanto, tudo se nos parece cinza agora. Não há flores, não há pássaros, não há crianças; o riso sumiu. Toda vida parece ter abandonado uma casa outrora bela, que agora se apresenta fria, seca e triste... uma casa atualmente feia, mas que pretenda ares de sublime beleza, como a madrasta perversa que mandasse matar a doce e gentil Cinderela. Batem as janelas da casa, freneticamente, mas nada dizem. Não podem dizer nada, é tudo mero barulho. Seus vidros quebrados, sua porta sisuda, a escadaria podre levam a um escritório, a uma biblioteca, a um quarto qualquer. O jardim secou, do poço só se extrai lama. Um intelectual de um cinza tão igual a tudo ao seu redor esmiuça tombos e volumes vários, antigos e modernos, numa busca heróica, porém estéril.

Dialética parece ter empacado em seu pior passo; História espera indiferente que ela avance. Conhecimento _ jovem sedutor e belo, mais cheio de perigos e armadilhas que a própria terra de Oz _ encontra-se disjunto, dilacerado, seus pedaços espalhados por quilômetros e quilômetros, num raio do tamanho de quase toda a ciência. Nessa figura disforme, fractal, não pode haver beleza; e efetivamente não há. Cada parte do jovem moço pretende ser tomada como sendo o conjunto completo, desvinculada de suas partes congêneres, e ter tamanha harmonia e perfeição quanto todo o conjunto; mas evidentemente não pode.

Assim como um vagão não pode se movimentar sem uma cabine de trem que o puxe e guie, assim um aspecto da existência humana _ e também dos conhecimentos _ não caminha desvinculado dos outros setores, numa unidade que confere movimento ao conjunto.

Resultado dessa dilaceração do conjunto humano é o empobrecimento geral a que chegamos nos dias atuais, vítimas e agentes de um segmentarismo e especificismo que, muito além das fronteiras do saber, abraçam também e não menos gravemente a política, os empregos, os relacionamentos interpessoais, as teses acadêmicas, a educação, as artes. Nos vemos uns aos outros e a nossos trabalhos como se fôssemos todos frutos de uma imaginação cubista, torta, desarmônica.

Eis aqui, pois, a razão deste convite, a arma que usaremos para limpar toda a poeira, toda a ferrugem, toda a sombra de cima de nossos livros, de nossas teses, de nosso próprio pensamento: agirmos como se nossas cabeças fossem um grande recipiente em que várias peças trabalham dia e noite na produção de um bolo. Podemos tanto adicionar apenas e simplesmente farinha, água e sal — e produzirmos básicos pãezinhos franceses —, quanto podemos tomar ingredientes das mais diversas origens, sabores, formas e texturas — tendo por resultado uma linda, saborosa e exótica torta de limão! Aceitemos que qualquer um dos dois mata a fome, mas qual deles você prefere?

Esperamos, pacientes o quanto possível, que cada vez mais pessoas se deixem perceber da necessidade urgente e necessária de tentar descobrir e estabelecer as ligações _ que existem _ entre Cálculo e Arte, Filosofia e Poesia, Matemática e Literatura, Cidadania Teórica e Ação, etc. e etc.... enfim, de construir pontes entre as diferentes — e só aparentemente opostas — formas de conhecer e de agir. Costurar novamente os pedaços do belo Conhecimento e fazer Dialética dar seu próximo passo, despertando a eterna dama sempre alerta e atuante _ e que não é a Morte, a terceira das irmãs, mas sua gêmea, História. Pois há de se crer que, apesar de toda feiura, de todo cinza, de toda situação mosaica atual; apesar de inúmeros atentados sofridos, apesar de alguns alegarem ter seu coração com prova de seu fim, Filosofia _ a bela Cinderela _ vive, acima de toda pequeneza.

Quanto à tão louvada pureza de cada ciência e de cada saber que se imaginam e se pretendem desvinculados de todos os outros, declaro, em manifesto, minha vontade: das filosofias dos homens, não quero a que se intitule pura! Tamanha e falsa donzelice é inútil, morta, com fins em si própria. É como uma criança que tentasse retardar seu próprio nascimento, lutando tanto contra o tempo, quanto contra a ordem natural das coisas. Mas é claro que essa busca puritana é em vã: História — a grande mãe — tem contrações, e a verdadeira Filosofia urge nascer. Essa tal `Filosofia Pura' é um feto que luta para a consumação de seu próprio aborto, trabalhando para sabotar-se a si própria. É uma virgem cega, tonta, alucinada; uma donzela egoísta e suicida.

Cumpre-nos limpar a bela filosofia dessa pureza forçada que, tal como grossa ferrugem, trava o movimento perfeito de um mecanismo que naturalmente opera bem; trata-se de removermos uma grossa camada de fumaça depositada sobre a bela, rara e delicada Orquídea, sufocada de tanto cinza. Por contraditório que possa parecer, trata-se de limpar a filosofia para torná-la, enfim, `suja' — suja e autêntica!

Quero, pois, a filosofia mais impura, mais promíscua, mais híbrida e mais mundana que houver; a filosofia que não se permita perceber-se a si própria fora de seu contexto histórico, literário, teatral, científico, político e social. Uma filosofia que não seja um fim em si mesma, mas um meio que leve a algo de maior e mais sublime que o atual procedimento dos ditos `pensadores` que não fazem algo muito além de alimentar disputas intelectuais e fazer arder vaidades adultas e insanas.

A pose da Academia
(E, em especial, a da Academia de Filosofia)

Tomemos o intelectual cinza, habitante da casa cinza, fazendo sua cinérea pesquisa que ora ilustramos. Que tipo de filosofia ele pode, ou pior, quer produzir? Com que objetivos? Não precisaremos imaginar respostas! Pois basta que se observe um pouco mais de perto as atuais postura e situação de nossos pensadores, no Brasil e no mundo. À exceção de muitos esforçados homens de bem e de seus estudos; e de alguma pesquisa que, como que por acidente ou milagre, ainda é feita pelos demais, poderíamos tentar traçar um perfil de um tal homem: um ser tomado de e ensandecido por uma vaidade seca, finalista, cega. Grande parte das vezes, trabalha para sua autopromoção apenas, sem aplicar muito do que produz a nenhum foco muito diferente de seu próprio umbigo (e de seus livros, é claro, que estampam com grandes letras seus nomes nas capas.... o que às vezes dá no mesmo; é apenas uma extensão do umbigo). Na verdade, a pesquisa em si pouco ou quase nada importa.

Este ser seco, melancólico e estéril de qualquer beleza encontra respaldo em vários a si semelhantes, que, em meio a um ou outro pensador que ainda não se tenha tornado _ seja por resistência ou por aversão natural _ uma figura plúmbea, comandam o que, a despeito da grandiosidade inicial do nome, convencionou-se não inocentemente chamar `Academia'. Envergonharia-nos ver a expressão de Platão visse ele que tipo majoritário de gente ocupa hoje o que se decidiu apelidar _ sim, pois isso não pode passar de um mero apelido irônico e de muito mal gosto _ pelo mesmo nome de sua magnífica escola que outrora fundara nas cercanias da Pólis. Certamente a visão de seu semblante, perturbado pela atrocidade com que tais semelhantes se tratam a si próprios e aos demais, nos obrigaria a rebatizar o negócio _ sim, porque também não se pode deixar de mencionar que muitas vezes tudo não passa de simples negócio (aliás, para alguns, até muito cômodo: trabalha-se pouco e mal, do jeito que se quer _ a depender da situação dos vapores de sua bílis naquele dia _ em hora, local e intensidade que se deseja... e ainda, veja-se bem, recebe-se algum dinheiro e, pior, honras por todo esse conjunto de qualidades incríveis! Não é o máximo?).

Mas minha intenção não é aqui perturbar a sacrossanta e inabalável tranqüilidade de tais respeitáveis senhores que se intitulam `acadêmicos' (que não seriam coisa muito melhor que vis negociadores do espírito, fascinados pelo falso brilho de um imenso diamante que acreditam ter depositado em seus próprios umbigos — o diamante de cada um muito maior, mais bonito, mais valioso e de mais fulgor que o do colega, obviamente). Não se trata de alfinetá-los. A intenção deste pequeno e despretensioso texto não é outra senão incitar o amigo leitor a não se restringir ao que convencionalmente se decidiu ser suficiente para sua formação. Currículos acadêmicos são resultado de convenções, interesses nacionais e estrangeiros, econômicos, políticos. Pouco ou nada têm a ver com a formação ampla que cada ser humano merece e de que precisa. A área de cada um não pode ser `Exatas', `Humanas', `Biológicas'; o limite da ciência é o conjunto da ciência, desde que por ele se interesse. Qualquer espécie de bitolação é, mais que perigosa, letal.

E Dona História e Dona Morte seguem firmes, infinitamente; que bom! Pois só esta pode fazer Vaidade — jovem insensata e cega, que obviamente também se pretende princesa —, fazê-la enxergar-se refletida nas tempestuosas e velozes águas do rio Tempo, vendo-se tal como realmente é: ingênua, finita, inútil e feia.

Para os que teimam em insistir na permanência reacionária e retrógrada, no apego a velhas doutrinas e a currículos ultrapassados, salvaguardados na segurança de seus empregos vitalícios e julgando-se acima de todo o resto da Humanidade, fica a grandiosa voz do que talvez tenha sido o maior dos poetas do barroco brasileiro, num canto contornado de encantos e sutilezas certamente imperceptíveis para tais `pensadores':

É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa,
De que importa, se aguarda sem defesa,
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?

                                         Gregório de Matos

Bibliografia

BAUM, L. Frank. The Wonderful Wizard of Oz. England: Penguim
        Popular Cassics, 1995.

KANT, I. O Conflito das Faculdades. Lisboa: Edições 70, 1993.

DIDEROT, D. Plano de uma Universidade. Trad. J. Guinsburg.
      (livro ainda não lançado).

CÂNDIDO, A. e CASTELLO, J. A. Presença de Literatura Brasileira.
        São Paulo: DEL, 1973, vol. I, p. 73-74. In: Português, Livro 2. Col.
        Anglo. São Paulo: Anglo, 1991, pág. 40.