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ROTUAUTOR: WFP – OBOI@BOL.COM.BR

 

 

VÍDEOPEÇA

- para teatro e cinema.

 

 

Leitura-coisa dramática de parcela surrealista-coisa

(Dedicado a Shakespeare, Speedy, Lume e Brócolis VHS)

 

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

Grande mesmo é a arte,

mesmo que porca, desde que própria.

Irrealizada ou derrotada arte, em abortadas óperas ou nunca-nascidas

imagens e autorias, se assim consideradas, claudicantes obras, mancas,

querendo sempre

sempre

querer

 

aquilo,

 

que não têm.

 

Ah, o incessar dos desejos! Seria?!

 

Nós, homens, Minie certezas, luas cheias e Cazuzas com orelhas de Mickey, pra quem

não sabe amar, e fica esperando alguém que caiba no seu sonho. Como rugas, raízes e varizes

que vão aumentando...

 

Como insetos em volta da lâmpada.

 

Acumulando-se, mal plantadas sementes de trivialidades gigantes.

Pessoas com cara de coisas.

Coisas falando como pessoas.

Romeus e Julietas.

 

Res, rei. (LT)

Coisas.

 

>>> Piedade, ó Coisas... fictícia piedade! <<<

 

 

 

 

APÊNDICE (E APENDICITE)

 

Peça para Teatro de bolso

Ato Único – 10 Cenas

 

 

 

 

PRÓLOGO

 

 

“Se nós, sombras, vos ofendemos,

Pensai somente nisto, e tudo estará resolvido:

Ficastes aqui dormindo,

Enquanto apareciam estas visões.

E este fraco e humilde tema,

Que nada mais contém do que um sonho,

 

Gentis espectadores, não o condeneis.

Se perdoardes, nós nos emendaremos.

E palavra de Honrado Puck,

Que, se tivermos a sorte

De agora escapar da língua da serpente,

Procuraremos corrigir-nos o mais possível-brevemente.

 

Do contrário, chamai Puck de mentiroso.

Assim, pois, boa noite a todos.

Dai-me vossos olhos, se somos amigos.

Dar-te-ei a mão.

 

E Lady Macbeth mostrará seu próprio irreconhecimento.

Mas como não convém a qualquer de nós dar-se por louco,

Esqueçamos em pouco, in short, para menos doer.

De sofrer eu já estou farto, quedei-me harto!,

E de altas-tais fantasiosidades,

 

Amigos convido, gAstronômicos,

para questões de gourmets.

 

Bon Appetit.

Fuck you too.”

 

 

 

 

 

TÍTULO:

 

“Boticário & os ingredientes

da goiabada com queijo”

 

 

 

 

DRAMATIS PERSONAE

 

- ROMEU

- BOTICÁRIO

- MOÇA DE LAS VEGAS

- MENDIGA

- MERCÚCIO, 3 GORDAS E 1 OVELHA

 

 

 

CENA 01 – Int./Dia. – SALA DE BOTICA ITALIANA MEDIEVAL (ROOTS) – Romeu e o Boticário

 

Romeu

 

Boticário, boticário, seja criativo! Seja rápido! Dê-me um medicamento que simule a morte, pois que a viver sem Julieta prefiro mil vezes estar quase-morto...

 

 

Boticário

 

Não preferes morrer?

 

Romeu

 

Quem, eu, Romeu, morrer por amor? Morrer por amor em plena civilização? Ora, senhor! Eu sou um cidadão, um gentleman, um aristocats.

 

Morrer pela diferença de um nome, um simples sobrenome? Oh, senhor Boticário, o que há de verdadeiramente num nome? Acaso não pensas que uma rosa, fosse ela chamada qualquer outro nome, exalaria o mesmo doce perfume?

 

Boticário

 

Senta-te, Romeu. Eis a tua cadeira, toma-a. Estás pálido e frio, verde como a lua invejosa lua cheia Romeu...

 

Romeu

 

Oh, escuta, Boticário! Eu sem Julieta já não posso Ser. Ouves, amigo, ouves? É o canto da cotovia, a ave da aurora. Apressa-te, phile, eu vos rogo...

 

Boticário

 

Ora ora Romeu... Cala a boca, não delira na realidade. Lembra-se daquela vez que você se convenceu de que seu nome era outro? Você mal ainda era uma criança, e já delirava a realidade. Observa, takête, fermez-la bouche.

 

Beba este remédio. Você entenderá a realidade. Há muitas coisas, e várias pessoas, entre o céu e a terra, Romeu. Você não imagina a metade, sequer a décima ou centésima parte.

 

Romeu

 

Mas eu só dizia que... (/interrompido)

 

Boticário

 

Nada digas, para que tua tolice não aumente. Ou pelo menos preserva-te de te tornares um tolo público. Bebe o remédio. Você vai entender que entre Verona e o Kansas há muito mais tipos e tantos-tantos de bruxas feias em hurricanes e Dorothy’silvershoes do que você percebe.

 

Você, Romeu, nada entende sobre a realidade.

Você é um baile de máscaras...

 

Romeu

 

Tomo este pequeno frasco, caro Boticário. Espero que me faça de fato morrer. Eu para Ser já não presto. Ser cansa demais, e sem Julieta...

 

Boticário

 

Romeu, seu problema não é Julieta. Vamos beba isto. Você vai andar até o centro, e de lá vamos nos reencontrar, e do centro sai toda ação, que o centro da roda é fixo.

 

Romeu

 

Falas com maestria, caro senhor, mas confesso que pouco entendo do muito que dizes. Já não consigo pensar. Sinto na pele um torpor antigo, amarelo, tonto. Acho que vou morrer...

 

Boticário

 

Tomara que sim, eu espero, se assim você calar a boca. Mas não te aborreças. Nada vai ser como antes, mas tudo ficará bem.

 

Em breve, Romeu, você amanhecerá completamente curado...

 

 

[CORTINAS]

 

 

 

CENA 02 – Int./Noite. – DISCOTECA ANOS 70 (STUDIO54) – Romeu prostrado no sofá

 

Romeu

 

“Boticário, boticário, seja criativo! Seja rápido! Dê-me um medicamento que simule a morte, pois que a viver sem Julieta prefiro mil vezes estar quase-morto...”

 

Oh, não isto eu já falei... Oh, sim, percebo:

Sim, sim, estou certo: vejo o astro apolíneo, oh, o Sol, sim,

já é dia...

 

Mas... espera aí... vejo o dia uma ova... onde estou? Cadê a porra do sol, caralho? [CLOSE UP: GLOBO ESPELHADO]

 

[PANORÂMICA 360º DA DISCOTECA, PLANO AMERICANO. ROMEU ATÔNITO. CHEGA UMA DANÇARINA DE LAS VEGAS, REBOLANDO COMO RACHEL, DE BLADERUNNER]

 

Moça (com bandeja e saltos)

 

 

Ora, vejo que já acordou, e cedo. Tome, beba isto. O boticário mandou que bebesses isto. Vá, ande, engula! Vai te fazer bem.

 

Romeu

 

Eu? Beber isto? Onde está o boticário? O que aconteceu? Quem diabos-de-raios-que-o-parta é você? E que lugar esquisito é este?

 

Moça

 

Vamos, Romeu, não se preocupe. Você logo vai entender.

 

Romeu (bebe remédio)

 

Quem é você? Qual é o seu nome? O que está acontecendo? Como vim parar aqui?

 

Moça

 

Oh, pobre Romeu... você está aflito. Mas sei o que te passa. Eu também já amei Julieta. Mas, pobre Romeu, você hoje não a reconheceria. Julieta está tão diferente...

 

Romeu

 

Você conhece Julieta? Julieta está aqui? Mas como você sabe que.../ (interrompido)

 

Moça

 

Escute-me bem, Romeu: esqueça-a. Esqueça-me. Aquela Julieta já não existe. Eu mesma já mal existo. E você, Romeu, você só existe ainda por alguns minutos. Depois...

 

Romeu

 

Depois o quê?? Me diga, ande ou eu vou te matar. Onde está Julieta, o que aconteceu?

 

Moça

 

Uma coisa aconteceu. Uma coisa que você irá descobrir. Uma coisa terrível e fatal a todos nós, civilizados.

 

Romeu

 

Então, se é mesmo como dizes, nem mesmo me adiantaria chorar. Ah, pobre coração machucado, arrastado pela vida da morte, apartado pela morte das ilusões.

 

Oh, moça, então dizes que Inês é morta?

 

Moça

 

Sim, e não adianta chorar sobre o esperma-não-derramado. Inês é morta, Romeu. Eu lamento muito, profundamente... Mas Julieta vive...!

 

Romeu

 

Como? Vive? Mas eu pensei que dizias.../

 

Moça

 

Pobre Romeu confuso, falas de Inês ou de Julieta?? Deve ter sido o medicamento. Aliás, como te sentes agora?

 

Romeu

 

(Esbabacado, pensando alto) Julieta vive...

 

Moça

 

Bem, Romeu, eu vou indo. Julieta transformou-se em outra pessoa, ou melhor dizendo... é... como dizer...

 

Romeu

 

Vamos, diga logo: transformou-se no quê?

 

Moça

 

Julieta, Romeu, não é mais uma pessoa. Agora ela é uma coisa. Uma coisa.

 

Romeu

 

Coisa? Mas como é possível uma coisa assim? Qual é o tamanho de vossa nova tecnologia e ciência, senhorita... de roupas estranhamente mínimas??

 

Moça

 

Julieta coisificou-se, e isto não é mera tecnologia. Demoramos milênios para conseguirmos os resultados. Mas Romeu, por Zeus, durma. São estes outros tempos, Romeu, e os perigos de hoje são muitos. Não se preocupe, apenas descanse.

 

Aproveite seus últimos minutos de vida como pessoa, aproveite-os para matar saudades do que não voltará. Observa teus sentimentos nobres, de Verona e de berço, e teus elevados ideais.

 

Você não vai atrás da coisa, Romeu. A coisa vem até você. Apenas não se assuste. A coisa tomará conta de tudo... Mas logo você se sentirá à vontade nesta civilização.

 

Relaxe, Romeu. Eu voltarei, cada vez mais nua.

 

Romeu

 

Ora, espere. E como esperas que eu descanse? Qual o teu nome, por que te vestes e despes, quem de fato és??

 

Moça

 

Há mais perguntas entre o céu e a terra do que julgam nossas vãs respostas, respostas, respostas, Romeu. Responder ou não responder a questão, eis a questão...

 

Romeu

 

Ó moça, vejo e sinto que rápido se faz o phármakon, pois que sinto e tenho os pés frios, as pernas gelando-se, os joelhos duros e as coxas hirtas. Sinto-me parando o coração, parante a mente embotada e completamente parado o ar.

 

Não sei se respiro...

 

Moça

 

Não te assustes, Romeu, é o ar. Eis o teu novo sono, Romeu. O novo sono revelador. Entregue-se à simples, inegável e incombatível presença da coisa.

 

A própria coisa se faz respirar, e teu pulmão não é mais teu. A isto chamamos “O SONO TECNOLÓGICO”, e convém mas não adianta se assustar.

 

Relaxe, Romeu. Entregue-se à tua nova realidade.

 

[ROMEU DESABA AO SOLO, DORMINDO].

                                                                                                                                

 

 

CENA 03 – Int./Noite. –ONÍRICO S/ CENÁRIO – “O sonho de Romeu”

 

 

MERCÚCIO ENTRA CORRENDO NU, DE PERUCA PINK, COMENDO ALGODÃO DOCE VERDE. CAI UM PENICO NO PALCO (DO ALTO-CENTRO). ENTRAM 3 GORDAS PINTADAS COM BOLAS E COMEM 3 CACHORROS-QUENTES, ENQUANTO UMA ENORME BOCA MULTIMÍDIA SE ABRE, FAZENDO EXPLODIR 3 DENTES.

 

NESTE INSTANTE, SOLTA-SE UMA OVELHA NO PALCO, PARA VER O QUE ACONTECE.

 

 

 

 

CENA 04 – Int./Noite. – DISCOTECA ANOS 70 (STUDIO54) – Romeu desperta

 

Romeu (monólogo)

 

Acordo, e vejo que novamente vivo o pesaddelo, e que para sempre perdi a velha Verona. Este o tempo novo, mas que tempos? E onde está o Sol?

 

Sonhei com Mercúcio. (Pra que lado está o Norte?). Mercúcio carregava ovelhas, acho que do pai dele. E vi Julieta – ah, meu amor – com as bochechas rosadas, comendo queijo-com-goiabada. Mas, pobrezinha, no sonho ela estava com dor-de-dentes.

 

Por fim, vi bicicletas jorrando de um banquete de muitos tipos de pães e salsichas, pais e mães nus, de mãos dadas e todos juntos, com os pés no riacho ao fim da tarde, discorrendo-se sobre o amor e escorrendo-se em fendas verticais e travessias horizontais de diferentes vértices, durações e calibragens.

 

Sonhar, sonhar, sonhar que se esquece e que nem se faz sentido... Sonhar para lembrar, mas como entender o que dizem? Serão estas lembranças reais? Se alguém mais pudesse ver os meus sonhos, será que mos diria como os digo?...

 

Ah, que no seio do tempo algum dia algum Fulano ou Freudcicrano explique o fato e elabore, sob fino tato, a fixação retratada da luz etérea refratada da doce imagem onírica da noite, que traz meu amor.

 

Fantasmagórico, semi-confuso, erótico e completo.

 

 

 

 

CENA 05 – Int./Noite. – DISCOTECA – Romeu parece Alice e encontra-se com Dorothy, depois foge.

 

Romeu

 

[TERMINA DE ACRODAR E SAI ANDANDO PELA BOATE. ECONTRA UM ENORME BOTÃO SURREAL VERMELHO SOBRE O SOLO, ESCRITO “JUMP HERE”]

 

Jum... pê.. ére.. Oh, creio desconhecer esta língua bárbara, este estranho dialeto, ainda que não me sejam estranhas as letras do alfabeto. O que fazer?

 

[PERAMBULA, ETC. SOBRE O BALCÃO DO BAR, ENCONTRA UM FRASCO ESCRITO “EAT ME”]

 

Mais e mais hieróglifos, nesta estranha sala... Preferiria a morte verdadeira, por real e efetivo veneno do Boticário... Antes a morte sem ilusões do que a psicodelia desta nova realidade para a qual aquela porção mágica me despertou...

 

[ENTRA A MOÇA DE LAS VEGAS, VESTIDA DE DOROTHY DO MÁGICO DE OZ]

 

Moça

 

Romeu, não seja ridículo. Não diga “PSICODÉLICO”. Vai estragar a peça.

 

Deixa de ser anacrônico, Romeu.

 

 

Romeu

 

Sinto muito, moça. Aliás, meu nome é Romualdo (atira a peruca ao chão) e essa Julieta-coisa aí já tá difícil demais, e essa mina eu já comi várias vezes, então foda-se esta peça, que eu já tô puto de fica falando difícil.

 

[Entra o Boticário]

 

Boticário

 

Romeu, calma. Pára de inventar nomes novos, e instala o seu sabelo. Romeu, Romeu, esse Romeu não está de brincadeira, Romeu. Presta atenção que você não é Sansão, mas masacredite, amiguinho [APONTA PARA A PERUCA NO CHÃO] que, sem este cabelo, você não é NADA. NADA!!! Entendeu???

 

Moça de Las Vegas, vestida de Dorothy

 

Vamos, Alfredo, não o pressione tanto assim. Romualdo é apenas um menino...

 

Boticário

 

[FURIOSO, ATIRA SUA PRÓPRIA PERUCA AO CHÃO].

 

Me-ni-no? Você falou “menino”? Ah, eu não acredito. É, é menino sim, pra criar vergonha na cara. Não quer ser ator, não quer? Então não veio porque quis ao espe-tá-cu-lo de teatro??

 

Então termina a peça, cacete!! Vamos, Romeu, coma o frasco sobre o balcão e pule sobre o botão vermelho no assoalho escrito Djâmp Hiar.

 

Romeu, baby baby, Show Must Go On.

 

E aliás, sua prostituta ridícula vestida de “Não há lugar como o nosso lar, Totó” [ABSOLUTAMENTE IRÔNICO]. Não defenda este pivete pervertido, só porque ele te fode no camarim, todas as terças com certeza, e quem sabe, todos os dias.

 

Moça

 

Oh, mas assim me ofendes!

 

Boticário, sem peruca

 

Ah, que merda, vai pra puta que pariu, porra, caralho cacete inferno diabo escroto da porra puta que pariu caralho merda de cacete buceta porra dos inferno vai se foder que desgraça do belzebu capeta-macumba de encosto da porra véi! Fala estéreo!! Sua VACA BOKETERA PUTA QUE PARIU DESGRAÇA SOME TRIBUFA GORDA AZEDA BALEIA FEDIDA DOS INFERNO, DESGRASCENTA!!! FODA-SE, CARÁI.

 

Parei. Stop total. Agora eu que foda-se.

 

[“‑ SIM, FOI O QUE ELE DISSE”].

 

Romeu, subitamente e em voz alta

 

Não a ofendas, pois realmente a fodo, e também por isso sou livre. Não ouse, caro senhor, enfrentar um jovem-dilacerado-insando. Esta realidade não é minha. Agora, eu só lamento.

 

E a obedecer-lhe como dantes, ó Boticário, prefiro mil vezes fingir que faço a fazer, pois que sou ator e sincero, mas pago contas, e meu coração custa mais caro do que meu atual salário.

 

Fá-lo-ei, ou melhor, caro senhor: fa-lo-ia, pois que estou fora e cansado, sinto fome, sede e falta de amor, a mim não mais interessa o teatro, e o público? Eu quero que o público que se foda.

 

Falêi.

 

[RETIRANDO-SE, VOLTA-SE E COMPLEMENTA, PTONÍSICO]

 

Me queres que muito vos diga ou mos cale.

Na calle remôo e dôo de ver

Que sinto que posso e podia e possuo

Mas quão mais difícil se me torna crer...

Tão, mas tão mais difícil simplesmente ser. Ser...

 

[E RETIRA-SE, DIZENDO DE COSTAS]

 

Escuta, senhor Boticário: Há mais reticências entre o céu e a terra, que o limite total do teu estoque infinito de travessões, aspas, interrogações e ponto-e/ou-vírgulas.

 

[ROMEU SAI CORRENDO. FADE OUT].

 

 

CENA 06 – Ext./Dia – RUA. Romeu caminha.

 

Romeu (pensando alto)

 

“Acordo, e vejo que novamente vivo o pesadelo, e que para sempre perdi a velha Verona.”

 

Não, não, isso eu também já disse. Estou gradualmente me tornando um velho vinil riscado, riscado em mim mesmo. Começo a repetir frases. Já me faltam falas no teatro, e agora também na vida. Sempre venho a repetir-me, conforme você vê, que eu mesmo já acabei de falar tudo isso agora mesmo, só que imediatamente antes.

 

Romeu (em pensamentos íntimos e secretos)

 

 

(Ah, tão cansativo estou aqui, Romeu, na terra de ninguém e sem noção de tempo, a todos estrangeiro e em todas as partes, apátrida do tempo, raptofuga, sufocada e sôfrega, sugada e ausente num enorme buraconegrodotempo. Cadê eu de eu-mim mesmo? Onde ficou I ME MINE?)

 

Romeu (novamente pensando alto)

 

Mesmo assim, não interpretei o sonho da cena. Pois que não sei o que houve ou acontece, mas sei que sim, houve a cena. A cena da base da boca feito pipoca, pow-pow-pow de três dentes a menos... dentes de gordas pintadas de bolas?

 

Ou teriam sido focas?

 

[GRADUALMENTE OFEGANTE] Não, não. Bolas. Focas teria sido sonho, e delírio na realidade. Eram gordas pintadas de bolas, comendo hot dogs, sim, estou certo, eram gordas humanas, em número tri.

 

[FILOSÓFICO] Porém, o que significa “delírio na realidade”, se a própria Verona já não É nem HÁ, nada CONTÉM nem FICA. Inexisto de mim mesmo, e como afirmo – tão valente quanto ignorantemente – que por certo afirmo ter visto gordas e não FOCAS???

 

Ora, não importa. O que pretenderia um diretor assim. Certamente a vida, como Verona, e como o teatro, também carece de verdadeiro roteiro.

 

Sim, é sono. É o mais puro sono cibernético, o sono e os sonhos tecnológicos e automáticos, ai sensação desgraçada que sinto no corpo e nos ossos, Romeu.

 

Ai de mim pra mim mesmo!

 

[SUBITAMENTE, ROMEU DEPARA-SE A UM CRUZAMENTO DE RUA, COM PORTA DE LOJA FECHADA SOB LAJE, CAIXA DE MADEIRA, PAPELÃO DE COLCHÃO E 1 MENDIGA COM A MÃO ESTENDIDA, NO CENTRO DE QUALQUER CIDADE, PEDINDO-LHE DINHEIRO]

 

[ARREPENDIDO, ENQUANDO ATRAVESSAVA O CRUZAMENTO EM DIREÇÃO, VARANDO A CALÇADA, ROMEU COMPLETOU, DIZENDO:]

 

O que pretendia aquele roteiro, aquele roteirista? Que intenção doentia... ou... mórbida... ou... ai credo.... o quê qui um cara qué fazendo um espetáculo assim.

 

Este roteiro é ridículo.

 

[PORÉM, VOLTADO DE SÚBITO ARREPENDIMENTO E SEVERA CULPA, EXIGENTE DE AUTO-PUNIÇÃO, ROMEU VOLTA-SE À PLATÉIA/PÚBLICO E CONFESSA ABERTAMENTE QUE, NO FUNDO, DEVERIA TER MESMO TERMINADO A PEÇA. PORÉM SEGUE CAMINHANDO FIRMEMENTE, DIZENDO SOMENTE ISTO:]

 

‑ Je ne regrette rien. Non, rien de rien. Foda-se. Mas como o teatro mexe com a gente... e como mexe...

 

 

 

 

CENA 07 – Ext./Dia – RUA. Mendiga

 

Mendiga (digirindo-se a Romeu, que passava)

 

Pelamordedeus moço me dá um trocado que eu tô doente operada das versícula rúim de tudo sem remédio que fiz cerorgia das varsíca e do instráunsbo que tava com úrça e grastite do fígo pra mór di dô no apêndice e piór que meus fío tá em casa sem cumê que o pai deles bebe e bate neles tudo e bate neu e ispanka nóis que o sinhor pelamordedeus me dá umas moeda que .... (e começa tudo de novo, igualzinho).

 

Romeu

 

Você dorme aqui?

 

Mendiga

 

Que que é, moço, o que que o moço qué? Repete?

 

Romeu

 

Você mora aqui, na rua?

 

Mendiga

 

Que que é, moço, o que que o moço qué? Repete?

 

Romeu

 

Você mora aqui, na rua?

 

Mendiga

 

Quem pergunta? De que filme você veio, que não se repete e sabe? Quem é você, sujeito-cidadão, que nunca te vi?

 

Romeu

 

Eu sou Romeu, você não acreditaria. Aquele mesmo Romeu da Julieta, só que agora deu tudo errado, eu queria morrer e parei numa boate dos anos 70, agora descobri que sou ator e não sei quem é você, nem onde estou, nem quando é...

 

Mendiga

 

Tu falas bem, para um vagabundo desempregado com roupas ridículas e cara de hippie fedido.

 

Romeu

 

Tu também, senhora, fazes bom uso da regra culta da coisa, mas – que coisa! – não é que de tempos em tempos todas as coisas mudam, e até algumas mudam para o estado de coisas?

 

Mendiga (desconfiada)

 

De que tipo de coisas você está falando, menino? A que precisamente te referes?

 

Romeu

 

Do tempo onde eu vim, havia pessoas. Na eternidade de minha literatura vivo, mas veja que agora tudo-morro, que as drogas do Boticário e os remédios da Moça de Las Vegas me conduzem gradualmente ao sono tecnológico, no qual já me resfrio, já nem sinto que já não sinto nada, e sentir algo já não me faz falta, nem dói.

 

Sinto o coração dormir, sedado tecnológico, enquanto instala-se a dormência profunda, contende, civilizada entre as células e fibras dos meus músculos e ossos.

 

Você já se sentiu assim?

 

Mendiga

 

Sim, é o ar. O ar te coisifica, gradualmente aqui. Quanto mais você respira, mais o ar te faz essa coisa... Calma, a sensação passa. Dentro em pouco você esquecerá que precisa respirar ou defecar, pensar ou sentir. A coisa vai tomar conta total. Não a julgue. Está no ar. É idiotismo resistir ao que tudo permeia.

 

Você sente medo de estar sendo coisificado, Romeu?

 

 

Romeu

 

Como sabes que me chamo Romeu??

 

Mendiga

 

Ora, você me falou, Romeu da Julieta, lembra?

 

Romeu

 

Oh, céus, os trópicos me fazem mal, e posso jurar ter sido vítima da picada letal de algum inseto afrotransamazônico letal e místico, que me retira totalmente as forças.

 

Mendiga

 

Ora, crie modos de homem. Deixa de viadagem, moço. De que romantismo doente você veio, do qual se expressa.

 

Romeu

 

Culpe-me, senhora, por minha inconveniência, se a aborreço; mas não ouse criticar-me no mínimo detalhe, pois nada sobre mim sabes. Exagero-me ao gosto do homem da forja, aquele que faz. E este, senhora, é envolvido pelos mais densos mistérios, e sobre ele nada se diz, pois nada se sabe...

 

Mendiga

 

Tu te referes ao Criador?

 

Romeu

 

Qual deles? O que criou o quê? O Creador ou o Tecnocreador? Ele-Aquilo ou o Homem?

 

Mendiga

 

Me confundes, como antes. Não, Romeu, agora escuta. Minha história, caro senhor, fora destes papéis todos, sinto muito, mas esta eu não posso nem poderei jamais contar-lhe. Vós não acreditaríeis, nem tampouco iríeis compreender.

 

 

Romeu

 

Falas deveras bem, para uma mendiga...

 

Mendiga

 

Tu também, para um mero viado de merda.

 

Romeu

 

Senhora, do tempo onde eu vim...(/interrompido)

 

Mendiga

 

Eu sei, Romeu, eu sei. Aqui há algo chamado o tempo, esta vertigem que primeiramente te gelou os pés. Deus dá, a cada dia, o pão-tempo nosso conforme o merecido.

 

Mas ó, luz do dia, como aqui envelhecemos rápido. Pouco antes, na eternidade, eu...

 

Romeu

 

Então é isso: você também não é daqui, você veio de lá, não veio?

 

Mendiga

 

Romeu, pobre Romeu. Um dia acordei radiante e dirigi-me ao lindo riacho, seguindo dois passarinhos que foram brincar na areia e se refrescarem na água empoçada.

 

Porém, Romeu, logo vi você, no dia P do nosso Plano, dirigir-se ao Boticário e encomendar-lhe a morte. Não poderia suportar viver sem o seu amor [PEGA NO PAU DELE], nem a dor daquele novo matrimônio, que diziam as criadas ser dos mais arrombativos de todos os caralhos.

 

Ai de mim, que era ainda tão nova.

 

 

Romeu

 

Tu acaso estás afirmando que... és Julieta?

 

Mendiga

 

Quem mais o teria pego no flagra, naquela manhã, trocando masturbações com Mercúcio, que de amigo parece que virou namorado.

 

Romeu, você me traiu com um homem??

 

 

Romeu

 

Julieta, não é nada disso. Eu posso explicar. Mas você... (/interrompido).

 

Mendiga

 

Aqui não é mais Verona, Romeu. Nem eu sou mais Julieta. Aqui nós não temos mais nomes. Aqui só temos funções. Funções compridas. Cumpridas funções. Você viu a Moça de Las Vegas? Percebe que ela não se-chama nada??

 

Romeu

 

Julie... (/interrompido).

 

Mendiga

 

 

Eu de amor morreria, mas tu não. Amas, Romeu, apenas tua mão (e talvez a de Mercúcio, ao que me pareceu). Pois que sim, fingi-me de morta e fui também à discoteca, nosso Hades, se na Grécia houver mendigos.

 

 

Romeu

 

Dizes que estamos na Grécia?

 

Mendiga

 

Não Romeu, não estamos na Grécia. Aqui neste lugar, sob o tempo, simplesmente estamos. Contente-se em estar. Aqui não existem relógios.

 

Romeu

 

Por que não vejo o Sol?

 

Mendiga

 

É o novo Sol Tecnológico Mundial. Luz difusa, em vez de globo solar. Dizem que faz bem para a pele, e para as plantas.

 

 

Romeu

 

Julieta, por que te pareces com Marcela? O que te passou? Por que tão ríspida e dura? Por que tanto envelhecida, tantos cabelos brancos?

 

Mendiga

 

Aqui o tempo conta. Aqui você não é Romeu, não há Montechios ou Capuletos, nem Silvas ou Pereiras, Oliveiras, Carneiros, Johns ou Jacks.

 

Aqui não tem nem Romeu, nem Romualdo. Aqui, você não se diz. Aqui, Julieta foi crucificada numa nova forma, como Deus, quando desperta das Sete Noites e se crucifica num novo Universo.

 

Eu não sou mais Julieta do que qualquer mendiga, e aqui é assim, ó, rapaz que um dia amei. Meu nome não tem nome, senão sujeira. De nada adiantarão tuas lamúrias, nem o sacrifício desinteressante de teus cordeiros oníricos.

 

Vou e volto-me, e me despeço. Boa sorte, Nova Coisa. Te falar me custou DUAS FICHAS, o imposto sobre realidade está cada vez mais alto, e as máquinas cada vez mais perfeitas.

 

Que a Coisa te faça bem. Se quiser, use meu corpo. Sempre gostei do seu pau tamanho médio.

 

[VOLTANDO-SE AO NORMAL, PENDE A CABEÇA E SE RESTABELECE COMO MENDIGA AUTOMÁTICA]

 

 

Mendiga

 

Pelamordedeus moço me dá um trocado que eu tô doente operada das córna que meus óio tava terrírve e ieu inganhei a cergorgia de gráça mai tá fartno o colíru [ETC. ROMEU NADA ENTENDE, E SAI ANDANDO]

 

Romeu

 

Julieta, pára com isso. Fale comigo sobre a velha Verona, sobre os acontecimentos, como viemos parar aqui e o que será de nós no dia-após-dia da Coisa. O que aconteceu ao nosso eterno amor?

 

Mendiga

 

O moço bonito aí tá a fim de sacanagem, é? É? Vem cá, meninão, vem aqui que a titia vai te mostrar uma caverna escura pra você brincar de escorregar, vem.

 

[ROMEU CAI EM SI].

 

Romeu/Romualdo

 

Desculpe, senhora. Acho que estou delirando. Tchau, eu vou embora...

 

 

 

 

CENA 08 – Ext./Dia – Romeu vira mendigo

 

Romeu

 

[SENTADO NUM CANTO, COM CAIXOTE E GARRAFA, MENDIGANDO-SE AO PASSAR DOS DIAS <alternar luz azul // amarela // negra, + trilha sonora>]

 

[NUM PAPEL AMASSADO ESCRITO “SHAKESPEARE” ELE ANDA, SUJO BARBUDO LOUCO E LÊ:]

 

“Na modernidade - onde quer que se encontre, indeferentemente -  situamos sítio e cena, pessoas de igual dignidade, levadas por antigos rancores e injúrias, causa novamente nova e pior ruína, fazendo de sangue sujas mãos inocentes e dantes civis.

 

“Os terríveis momentos de tal vida e o amor pela mortalidade da transformação de pessoas em coisas (coisas insignificantes e imundas), isto não poderá ser retratado, não cabe no cômico.

 

“Somente com Sabão, Ordem e Beleza, a Civilização irá obter a vitória com a morte total da sujeira, a sujeira social dos filhos da civilização. E somente assim a ira inaplacável dos Deuses das Famílias (com todos os seus diferentes e diferentemente poderosos e ricos SOBRENOMES).

 

“Este terá sido [DIZIA O PANFLETO], durante um curta-período de tempo, o assunto de nossa representação”

 

[TERMINANDO A LEITURA, ENTRA JULIETA]

 

Mendiga

 

[VIRANDO-SE AO PÚBLICO/LENTE] “E se a escutardes com atenção benévola, procuraremos nos redimir com perfeito zelo das faltas cometidas”.

 

Romeu mendigo

(para a mendiga, tomando-lhe a mão)

 

Se profano com minha mão este santo relicário, eis a gentil expiação: meus lábios, dois ruborizados peregrinos, estão prontos a suavizar com um terno beijo tão rude contato.

 

Mendiga

 

Me solta, cara.

Me erra, porra!

 

 

 

 

CENA 09 – Int./Noite – PALCO VAZIO, SEM PLATÉIA – O boticário-diretor

 

Boticário (monólogo)

 

Pois a fingir-me que morro, prefiro de fato morrer.

Que pior castigo por sobre mim incida, se não foi só por amor

Que vivera sem ter vivido uma última breve existência.

 

Confusos olhos, ouvidos, saberes-expectativas e expectorantes, respeitável público... preparemo-nos para grandes e acaloradas ondas de aplausos, vaias e deformações de toda ordem.

 

O diretor gostaria de saber. E, por FIM, se acaso me perguntardes: “Quem foi teu guia para a descoberta deste lugar?”, direi simplesmente:

 

‑ “Mesmo que todo o oceano longínquo fizesse estar tão longe tão belo espetáculo inútil, mesmo assim eu o percorreria inteiro, por Amor, somente e todo ele mesmo, que me incitou a indagar o ONDE e o QUANDO, sem explorar os POR-QUÊS. A mim ressoa “porquês” a “porquês”, a língua dos “porcos”.

 

[E ASSIM TERMINAM-SE AS FALAS, EXCETO PELO QUE DIZ POR ÚLTIMO:]

 

E foi tão-somente ao amor que eu lhe dei os meus olhos, minha vida inteira, e toda a minha tinta.

 

Por amor executei, ponto-a-ponto, os passos de minha pena.

 

PRÉ-FIM

 

 

 

 

CENA 10 – Int./Palco – CENA FINAL. A mortalha das coisas.

 

[ROMEU E JULIETA MENDIGOS, AOS TRAPOS, CAIXAS E JORNAIS, IMÓVEIS, LADO-A-LADO, MÃOS DADAS OU NÃO. MÚSICA DE FUNDO e PROJEÇÃO DE DATASHOW SOBRE ATORES ESCRITO “(COISA RES THING CHOSE KOISA COSA ETC)”].

 

FADE OUT. CUT.

 

FIM

 

 

 

 

APÊNDICE I

OBSERVAÇÕES TÉCNICAS

 

1.      A música final é composta de: noise, bricolage, telefones e tecnologias, sons do corpo humano, ratos grunhindo, sons de coisas diversas, depoimentos colados de mendigos-coisas. (Aos cuidados do DJ Speedy).

2.      Gênero artístico: melodramático-filosófico-metalingüístico-sóciourbano-paródico-surrealista.

 

 

 

 

 

 

 

APÊNDICE II

 

 “VIDEOPEÇA - Boticário & os ingredientes

da goiabada com queijo”

 

 

RESUMO E TENTATIVA DE AUTOCRÍTICA

 

 

O primeiro pedido não é por socorro, mas por criatividade. Seja rápido, seja criativo. Eis a questão que Romeu não podia resolver, pois era nobre mas não preservava real nobreza de espírito, nem fidelidade de caráter, e falhou frente à prova de amor.

A criatividade parece excelente phármakon (= remédio/droga/veneno/cosmético), a dependerem os efeitos, como em todo phármakon, proporcionais à dose ingerida.

 

Linhas gerais de análise levam a identificar a figura do Boticário como relacionada aos seguintes campos semânticos: showbizz, Alfredo, grande cientista, manipulador, diretor. Ele produz o primeiro phármakon. Entram Julieta e a questão da vida sobre a morte. Verossimilhança, promessa de cura e phármakon-poison, veneno do delírio na realidade, conforme os ditames da literatura.

 

PARTE 1: CONSTRUÇÃO.

 

Discoteca – Moça Vegas – Portion (porção/remédio/dose/porção-mágica/fração) – Lugar – Reificação/Coisificação de Julieta – Perguntas – Infinitas respostas – Efeito de-como-cicuta (homenagem a Sócrates, o Grande) – INTRODUÇÃO AO SONO TECNOLÓGICO.

Sonho – Mercúcio nu – Algodão doce – Perucas – 3 Gordas – 3 hot dogs – Boca: 3 dentes-pipoca – 1 ovelha/cordeiro.

 

PARTE 2: DESCONSTRUÇÃO.

 

Freud – Psicanálise = Loucura/Limite – Babilônia – Anacronia – Romualdo invade Romeu – Boticário (princípio de realidade) – Fim do Boticário – Exiunt – Sonho – Teatro – Arrependimento – Mendiga – Julieta-mendiga – Romeu-mendigo – Boticário e discurso.

Coisificação de todos. Dissolução do tempo narrativo. Congelamento fotográfico-dinâmico. Desmistificação do cinema. Afronta às formas clássicas de tempo e narração. Reaproveitamento psicocirúrgico.

 

Crítica à Civilização e ao homem-coisa.

 

 

 

 

 

 

 

WILIAN PEREIRA (TM), 2606041304DF

 

FIM